Era o sangue dos heróis,
do vermelho vivo das papoilas
que crescem livres nas searas loiras.
Sangue que jorrava pelas feridas
dos corpos, das faces exauridas
dos mártires sovados, e depois
fazia nascer no pátrio chão
homens de coragem e vontade
que lutavam pela Liberdade.
Defendiam princípios e ideias.
Cultivando suas parcas jeiras,
gritavam revolta em canção.
Fizeram com flores revolução!
Para espezinhar o opressor
tiveram em si o engenho e a arte,
vermelhos os cravos e o estandarte.
Libertaram presos e oprimidos,
granjearam honras de heróis antigos,
receberam títulos e louvor.
Envelheceram os heróis de Abril.
As cãs branquearam suas frontes:
Bebemos saber em muitas fontes,
as palavras de ordem acabaram,
acordos e pactos celebraram,
nasceram paladinos mais de mil.
Tendo sempre o povo como fim
murcharam os cravos no jardim!
Chamaram-lhe modernização
ao sepultar das convicções,
perderam-se em frente duns tostões,
esqueceram pobres e oprimidos,
calaram actos consentidos.
O poder tirou-lhes a razão!
Tingiram o rubro rutilante
com o ocre da hipocrisia,
do receio e da cobardia,
dos abúlicos consentimentos
e dos ávidos empenhamentos
em haver lugar preponderante.
É azul o sangue dos senhores,
o dos heróis vermelho vivo.
Mas na Pátria hoje, por castigo,
o sangue português é acomodado,
o rubro ficou alaranjado,
os vencidos são os vencedores.