Estavas alí solitário,
a cabeça inclinada
na aceitação do sacrifício.
O soluçar sem artifício
a angústia silabada,
o cumprir do teu calvário.
Alí, projectado no madeiro,
bebendo a agonia lentamente,
abandonado pela Divindade,
viveste a morte a tempo inteiro
e, surpreendentemente,
resgataste a Humanidade.
A vítima imolada,
a humanidade despojada
em lacerada nudez..
Nunca em teu viver de profecta
tua doutrina de asceta
teve tanta limpidez.
Pois, só nu dos bens terrenos,
matéria ao espírito imolada,
na aceitação da mortalidade,
pode o Homem, como o Nazareno,
desbravar humilde a caminhada
e descobrir a Divindade!